ENTRE O ENTULHO E A DELICADEZA

Minha pesquisa parte da apropriação e da remixagem de imagens já carregadas de autoridade histórica, institucional ou afetiva. Interessa-me profaná-las, retirá-las do regime estável de reverência e recolocá-las em circulação crítica. Entre a pintura, a gravura e o mundo digital, procuro tensionar as formas ao máximo, torcendo-as para que operem, ao mesmo tempo, como acontecimento sensível e provocação ao pensamento.

Daí minha poética limítrofe: cuspida e entalhada no excesso, na imagem febril e saturada, na harmonização da incongruência, na convivência entre entulho e delicadeza. Sempre entre a sedução e o desconforto, busco deliberadamente o impacto, a vertigem, um certo estado paroxismal da imagem. Interessa-me esse instante em que o olhar ainda não organizou tudo e, justamente por isso, está mais vulnerável ao aparecimento. Depois vêm a leitura, as relações, as tensões, os deslocamentos. Mas o primeiro golpe importa.

Em minha atual série, Neoantropofagia, a apropriação devora elementos do próprio Brasil — da história da arte à cultura. Em diálogo com a antropologia brasileira (e com a minha própria memória), o esforço se volta para geolocalizar o campo de tensão simbólico, expondo violências, contradições e desconfortos, dos mais patentes aos mais sutis. A experiência sensível da imagem serve como porta de entrada para convocar ao pensamento crítico — este que é, a meu ver, a mais potente das libertações.