POÉTICA

limítrofe

Minha pesquisa parte da apropriação e remixagem de formas historicamente consagradas. Interessa-me profaná-las, tirá-las do lugar estável da reverência e colocá-las sob tensão. Não sem atrito: opero entre meios digitais e pintura pra construir choques de linguagem que dessacralizam e reencenam imagens, pondo em jogo os modos como o poder organiza a memória, os costumes e a vida social. Pra isso, vale a pena torcer a matéria imagética até o limite.

Daí minha poética limítrofe: cuspida e entalhada no excesso, na imagem febril e saturada, na harmonização da incongruência, na convivência entre entulho e delicadeza. No contrapeso entre sedução e desconforto, busco uma vertigem crítica: primeiro, o impacto, o desnorteio, um certo paroxismo perceptivo; depois, a leitura, as relações, as tensões e os deslocamentos. Interessa-me — e muito — o instante em que o olhar ainda não deu conta de organizar tudo e, justamente por isso, está mais exposto ao aparecimento. O primeiro golpe importa.

Em minha série atual, Neoantropofagia, retomo a antropofagia modernista como procedimento contemporâneo. Rumino e remixo peças do imaginário nacional pra tensionar a identidade brasileira e as relações de poder que a atravessam. Em diálogo com a antropologia brasileira, com a filosofia política e com a minha própria memória, busco localizar campos de tensão simbólica e expor violências, contradições, desconfortos — dos mais gritantes aos mais sutis. A experiência sensível da imagem é minha porta de entrada: fisga, desestabiliza, embaralha; e, depois, convoca ao pensamento crítico. Este, aliás, onde deposito a maior esperança de liberdade.