MENDES, Lucas. Contracanto. 2026. Fotomontagem digital, impressão pigmentada sobre canvas, 59,4 × 84,1 cm. Série: Neoantropofagia.
NO CONTRATEMP0 DA REDENÇÃO
Em A Redenção de Cam, de Modesto Brocos, a cena de família contém um programa de país. Pintada em 1895, a obra distribui entre avó, mãe e neto uma progressão de embranquecimento: a mulher negra ergue as mãos diante da criança branca, convertendo em gratidão o projeto de desaparecimento de seus próprios traços. A violência dessa promessa encontra abrigo numa cena doméstica, organizada, aparentemente pacífica. Essa associação entre composição pictórica e projeto racial é examinada por Tatiana Lotierzo em sua pesquisa sobre a pintura.
Foi esse arranjo que decidi desobedecer. Ampliei o retrato tradicionalmente atribuído a Tia Ciata e o sobrepus à figura da avó. Sua presença altera a hierarquia da cena: o rosto cresce, encara quem olha e passa a conduzir a leitura. A personagem que deveria celebrar o próprio apagamento ganha a força de uma referência de criação, encontro e continuidade.
O selo de Pelo Telefone, as imagens ligadas ao Fundo de Quintal e a Dona Ivone Lara aproximam tempos distintos do samba. Formam uma genealogia feita de vozes, repertórios e relações. Na montagem, a transmissão entre gerações passa pela capacidade de criar e fazer circular uma cultura. O quintal entra no quadro com sua própria maneira de produzir história.
A presença de Wenceslau Braz introduz outra contradição. Segundo o relato preservado pela Casa da Tia Ciata, ela teria tratado uma ferida do presidente, conquistando benefícios para sua família e proteção para as festas em sua casa. Interessa-me o circuito de necessidade, prestígio e favor que essa história revela: o poder recorre a um saber negro, enquanto a segurança de quem o detém continua sujeita à concessão de uma autoridade. Na imagem, as formigas atravessam a figura presidencial. É um pequeno aceno às naturezas-mortas e à fragilidade desse corpo investido de poder.
O desvio também acontece nas palavras. A legenda histórica “Le Nègre passant au blanc” — “O negro passando a branco” — recebe uma resposta: “Le Blanc se sentant mal”, o branco passando mal. O trocadilho remete à enfermidade do presidente e, dentro da montagem, alcança o desconforto de uma ordem que se imaginava medida de saúde, civilização e futuro. O francês solene da tese racial é devolvido como mal-estar.
As sobreposições, as diferenças de escala, as retículas e os rabiscos deixam essa disputa à vista. A pintura acadêmica convive com a gráfica dos discos; a legenda recebe uma intervenção manuscrita; o retrato oficial perde a compostura entre formigas e manchas. O samba atravessa a cena que celebrava o desaparecimento negro e muda seu enredo. Interessa-me que o quadro permaneça reconhecível o bastante para que se perceba o que foi desobedecido.