CAIPIRA PICANDO O TEMPO (2025)

Nesta obra, revisitando o Caipira Picando Fumo de Almeida Júnior, a paz do campo dá lugar ao zunzunzum urbano. O personagem reaparece numa casa modesta, sitiado pela enxurrada de informações e aquela pressão contínua que parece comprimir a experiência do tempo nas cidades. Mas algo rompe a tensão superficial na tela: o ritual do homem permanece intacto, tal e qual, abrindo um clarão de controle e calma no ambiente hostil. Como se insistir no rito fosse uma forma de defesa. Ou resistência. Quiçá um modo de retomar, ao menos na escala microfísica do cotidiano, as rédeas e a graça da própria vida.

Concebida no digital e executada em óleo, a obra tensiona a aceleração dos avanços tecnológicos, do hiperconsumo e da exigência de performance com a valorização do instante por meio do ritual. Afinal, o caipira picando seu fumo, o artista pintando sua tela ou alguém saboreando o café da manhã são gestos simples que podem dizer a mesma coisa: picotar para si uma fração do tempo é um modo de preservar a própria dignidade. Um jeito de fazer com que o “progresso”, no campo ou no algoritmo, não custe até a alma.

Releitura de: Almeida Júnior, Caipira Picando Fumo, 1893. Acervo da Pinacoteca do Estado de São Paulo.

Ficha técnica:

Lucas Mendes, Caipira Picando o Tempo, 2025. Óleo sobre linho, 80 × 120 cm. Série Neoantropofagia.

Status: Coleção particular, Praia Grande, São Paulo. Empréstimo para exposição sob consulta.

Exposições:

Arte Inova/USP (INOVA/USP), São Paulo, out/2025. Link da matéria no Jornal da USP.

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