MENDES, Lucas. Preâmbulo nº 3. 2026. Fotomontagem digital, impressão pigmentada sobre canvas, 42 × 59,4 cm. Série: Preâmbulos.
AINDA
QUE
TARDIA
Entre uma morte e a correção de sua certidão, couberam quase quatro décadas. Vladimir Herzog foi assassinado no DOI-CODI em 1975, e a versão forjada de suicídio atravessou a redemocratização e sobreviveu no registro de sua morte. Somente em 2013, depois de uma longa luta da família, a certidão retificada passou a registrar que a morte decorrera de “lesões e maus tratos”. A Constituição que prometera liberdade e justiça já tinha, então, mais de duas décadas.
Foi dessa demora que parti para Preâmbulo nº 3, preparado para a mostra dos 60 anos da Escola de Comunicações e Artes da USP, onde Herzog lecionou por poucos meses antes de ser assassinado. O trabalho integra a série Preâmbulos — espécie de spin-off da Neoantropofagia —, na qual aproximo personagens da história brasileira das promessas constitucionais. Aqui, o retrato, o texto da Constituição e os fragmentos da decisão judicial se encontram para expor um descompasso: a brutalidade dos acontecimentos e a compostura com que a linguagem oficial consegue acomodá-los.
Trago Herzog vivo, com as feições simplificadas, quase cartunescas, cercado por verdes ácidos, violetas e rosas. A exuberância gráfica instala uma disposição para a galhofa num assunto que parece interditá-la. Desse desencontro procuro cavucar o incômodo: a cor chama, o rosto aproxima, as palavras começam a pesar. A familiaridade do retrato vai sendo perturbada pelo que se lê à sua volta.
Trechos da sentença atravessam os olhos do jornalista. A faixa informa e obstrui: permite ler o reconhecimento da violência enquanto interfere no encontro com o olhar de quem a sofreu. O documento passa a agir dentro da imagem, cortando o rosto, atravessando a expressão, disputando nossa atenção. A própria linguagem da reparação adquire uma presença incômoda.
No alto, amplio a expressão “ainda que tardia”, retirada da decisão. O que poderia passar como uma ressalva discreta ganha peso e ocupa espaço. Interessa-me dar dimensão à demora: entre a violência, seu conhecimento público e a correção do registro, houve uma vida coletiva que seguiu adiante, convivendo indiscretamente com a farsa. Rotina, apesar da mentira.
Corrigir a certidão não restitui esse tempo, não desfaz a perda nem pune, por si, os responsáveis. A fratura continua reconhecível nos nomes que vieram depois — Amarildo, Ágatha, tantos outros — e na facilidade com que a brutalidade reaparece sob a rubrica dos “casos isolados”. Uma continuidade que, com esse e os outros preâmbulos, procuro manter à vista, trazendo uma memória crítica e irresignada — sempre irresignada.