MENDES, Lucas. Sermão da Barragem. 2026. Óleo, acrílica e bastão de óleo sobre linho, 80 × 120 cm. Série: Neoantropofagia. Coleção particular, Viroflay, França. Atualmente em comodato com o artista em São Paulo, Brasil.
SERMÃO DA BARRAGEM
Pois foi então que, ante a notícia da turbidez da tragédia, Cristo Mineiro ganhou vida. Soltou de súbito a cruz de cedro; correu entre os inhos, levando peso equivalente; chegou ao rompicentro e quedou embasbacado. Não lhe parecia obra do acaso; do zunzum se colhia desdém-sofrimento. Chorou necrolágrima. E, de boca fechada, gritava, pensando:
Bem-aventurados os que apagam gente, ambiente e coisa alheia pra atuar na base do foda-se; os filhotes de ficção jurídica que cospem, mijam, cagam na boca de outrem, em praça pública, com seu cinismo rentável e sua fala idiota. Porque não responderão nem com multa. Aos outros — pobres, afogados, aqui fodidos, doravante ainda humilhados — é certo que desassiste qualquer sinal de bem-aventurança. Paz e dignidade só vale pra filha da puta.