Sermão da barragem (2026)
Sermão da Barragem reencena uma das figuras de Cristo de Aleijadinho, tomando a expressividade do barroco mineiro como ponto de partida para comentar a tragédia de Brumadinho e a violência estrutural que ela expõe. Aqui, arrancado do campo da devoção e lançado ao da tragédia previsível, esse Jesus Mineiro vai a campo como testemunha perplexa da feiúra de uma cena que contabiliza, além de lama e negligência, reincidência e uma impunidade desalentadora. A obra dessacraliza uma imagem historicamente consagrada da tradição sacra brasileira para tensionar religiosidade, poder econômico-corporativo e corpos tornados sacrificáveis.
A pintura se constrói por escorridos, obstruções, borrões e contrastes abruptos. Articula, ainda, terrosos espessos, verdes venenosos e passagens de amarelo e vermelho de cádmio para produzir uma atmosfera de turbidez, toxicidade e sufocamento. O rosto sagrado, já ferido de origem, aparece contaminado, parcialmente silenciado, misturando martírio e denúncia e ostentando um olhar que, se antes remetia à misericórdia, agora também parece carregado de indignação. Nesse arranjo, uma lágrima funerária — associada ao resgate de um corpo após a tragédia — condensa luto e memória traumática, enquanto o bloco verde sobre a boca sugere afogamento, apagamento da fala e compressão da vida pelo poder econômico.
Aqui não há milagre nem consolo. Apenas um rosto atônito diante de uma intolerável falta de bem-aventurança.
Referência/profanação: imaginária de Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, no Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, Congonhas/MG.
Ficha técnica:
Lucas Mendes, Sermão da Barragem, 2026. Óleo, acrílica e bastão de óleo sobre linho, 80 × 120 cm. Série Neoantropofagia.
Status: coleção particular, Viroflay, França. Atualmente em comodato com o artista em São Paulo, Brasil.
Exposições:
Sem exposições públicas registradas até o momento.
vistas e detalhes
Visão geral da obra
Processo
Detalhe: processo
Detalhe: olho direito
Detalhe: cabelo
Detalhe: texturas
Imagem de resgate apropriada e reelaborada na composição como "lágrima funerária" (Crédito: Alexandre Araújo/EL PAÍS Brasil, álbum “Brumadinho: o trabalho de resgate, em imagens”, 27 jan. 2019)